skip to main |
skip to sidebar
.presos em gessos institucionaisnossos sintomas berram..a falta de liberdade e de interesseé evidentemente patologizante..meu corpo grita silenciosamentenessas prisões do dia-a-dia..ainda insistem em me convencerque isso é o melhor pra mim..insistem que nem tudo nessa vidaé bom/agradável..meus sintomas discordam.
.virou o rosto numa velocidade incrívelcontra a sua vontade, contra a vontade do pescoço,na verdade, antes mesmo de qualquer vontade..quase imediatamente após a bofetadao moleque sente as lágrimas por viremsegura-as firmevira pra mãe e clamacomo o esforço de quem segura um grande peso e sente, com esse peso, uma imensa incapacidade de falaruma das primeiras palavras que aprendeu:- mãe...?..como quem não percebee realmente não percebendoo titânico esforço do menino em segurar as lágrimase dizer a palavra que, diretamente,não significa "por favor, me ajuda aqui, agora, eu preciso mais que nunca",mas que no momento significava exatamente isso,a mãe, com a cara de indiferença mais porca do mundonem olha pra cara do guri e diz, como quem olha pro horizontetentando enxergar algo:- você mereceu. agora aguenta..nisso, não há mais ajudanão há reforçoele está sozinho no mundosó elee a vontade de chorarvontade que passa pelos olhoschegam a doermas não se resumem a elesno choro, a garganta apertada chora,o peito contraído chora, as mãos e as bases da perna tremendo choram.mas ele não deixa parte nenhuma do seu corpo chorar..o menino abaixa a cabeça,como que para evitar gravitacionalmente que as lágrimas escapem,e tenta calar o corpo todo de uma só vez.tem vergonha e medo de mostrar que não aguenta seguraraquela vontade que dóiaquela vontade que, quanto mais eles seguramais se assemelha a um monstro brincando em seu corpo todo..o pai, autor da bofetada, ainda com a mão vermelha e quentedo atrito com a pele nova do rosto do guri,repara que seu filho, seu próprio filho, sangue do seu sangue,fruto de sua porra,resultado de seu desempenho sexual,futuro herdeiro de seus negócios bem e mal sucedidos,está de cabeça baixa como quem quer chorar,não aguenta e grita(grito que, para o moleque, dói tanto quanto o tapa):- engole o choro, porra. tu não é homem, moleque?..e a vontade de chorar cresceu no meninocomo um ser vivo e independente.e, no máximo que ele pode,se segurou.tremeu tanto o corpo todo que tinha medo de cair.sentiu a face avermelhar-sesentiu a palma da mão do pai latejar em seu rostosentiu seus olhos umedecerem cada vez maissentiu que estava fora de seu controle.com as respostas do pai e da mãe, só conseguia se culpare pensava que se chorasseseria ainda piormostraria fraquezamostraria discordânciamostraria que seu corpo se achava certoapesar da opinião do pai e da mãe..se controlou tantose segurou tantoque, por fim,não sentia mais culpa por aquela enxurrada de lágrimas que caiu.sabia bem: por ele, não haveria choro.as lágrimas choraram sozinhas, sem ele deixar.a culpa, no fim de tudo,era das lágrimas.
.eu me desfaço dos meus planos..homenagem ao mês de fevereiro.
.férias me entorpecem,eu sinto que os dias não mudamnão passameu sinto que eu to no mesmo diatodos os dias..não pela repetiçãomas pela continuidadevelocidadefluxo.
.leva um pedaço de mim..me faz doer..por favor.
.minha mãe disse que se encontrasse um homem como eu,
ela, sem pestanejar, o taxaria de medroso.
.ela diz que acordar em partir e deixar partir fácil
sem peso
é sinal de instabilidade
sinal de medo de compromisso
sinal de insegurança do que se quer.
.mamãe sugeriu que eu sou medroso.
.eu acho.
.ou ela não tá afim de me pegar.
.eu sinto que não sinto nada
e, estranhamente, simultaneamente,
eu sinto não agüentar o que estou sentindo..o nada pesa muito/tanto.
.eu confesso que não sei tocar nem uma música inteira na guitarra
mas um dos maiores prazeres da minha vida
é tocar tal instrumento.
.admito que não me considero poeta
que não sei fazer e nunca fiz uma poesia sequer
mas poetar me faz muito bem
fico aquém quando não poeto.
.assumo.
.têm vezes que eu sinto que nunca amei
e que durante toda a vida
amar foi o que eu mais busquei.
.amor, arte, alguns sentimentos
arte, amor e resmungos disfarçados
eu disfarço os resmungos
finjo eu que são só contemplações de patetices e tragédiasdessas simples vidas em eus.
.no fundo e bem na superfície,
quase que pra todo mundo que quiser ver,
eu resmungo mesmo..sou um puta resmungão.