segunda-feira, 1 de novembro de 2010

.a poética da terapêutica.

.ai eu perguntei:
- tem vezes que eu me pego perguntado, pra que sentir, afinal?
eu sei que deve ser uma coisa bacana, deve ter lá suas vantagens, mas eu não sinto faz tempo.
sabe? eu não sinto saudades e não sinto tristezas. não sinto euforias nem grandes alegrias, não consigo sentir raiva e o medo mal me atinge. eu sinto ansiedade, mas isso nem é sentimento direito. e ai, eu penso, se eu to bem assim, se eu ainda to vivo sem sentir nada, porque é que eu vou, nessa altura do campeonato, me esforçar pra sentir e correr o risco de doer? sinceramente, tem hora que eu acho que é vantagem não sentir. eu não consigo sentir falta daquilo que não experimentei. pra que qu'é que eu vou cavar esse buraco logo agora?
ai, ela olhou pra mim e disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:

-sentir serve pra você liberar esse seu peito firme e ter fôlego.

ai eu perdi o fôlego.

.as coisas óbvias d'a gente, quando ditas por outra pessoa, são ainda mais óbvias.

domingo, 31 de outubro de 2010

.a menina que restava.

.desde o princípio, aquela menina sempre foi o que restava
foi concebida acidantalmente,
graças à última camisinha, vencida,
que restou na carteira de seu velho pai

durante a infância, brincava no último parque
que restava na cidade, e sempre era escolhida por último
nas brincadeiras que as crianças brincavam juntas
(isso quando não restava tanto que nem chegava a ser escolhida)

sua educação foi suficiente
ganhou o que restava de paciência dos pais
depois de tantos anos de vida canalha
fora os anos de vida conjugal forçada
graças ao que restou de uma trepada

seu nome fora escolhido sem esmero
dentre as várias opções repetitivas e comuns
o que restava era um nome exótico
o nome esdrúxulo que lhe acompanhou pelo resto da vida
restara de uma lista de nomes de revistinha de 1,99

na sala de aula, não chamava atenção
(aqui não resta espaço pr'a palavra quase. ela era invisível,
tanto aos olhos quanto ao coração)
seu nome, que não faz diferença restar aqui ou não,
era sempre pulado na chamada
pois, o que restava de visão dos professores,
não conseguia se afetar com aquela nome na pauta

durante toda sua vida escolar, passou de ano sem muito esforço
ninguém lembrava dela, nem professores, nem alunos
com vergonha desse fato, a maioria dos professores
acabava aprovando-a com algum resto de nota de resto de tinta de caneta
para não passarem vergonha maior

quando amadureceu
restou-lhe perceber
que estava na hora de se comprometer com alguém
com uma carreira,
com um cachorro e um gato,
com um crediário justo,
com um plano dentário descente
e com algumas contas pra pagar

arrumou um homem!

o homem de sua vida
era um homem médio, desapercebido,
tosquinho,
o que nenhuma outra mulher quis ou, sequer, reparara
era o homem que restava

sua casa, comprada com muito esforço
e longo tempo,
graças ao pouco que restava de seu salário médio e desapercebido
não restou pór muito tempo

caiu-lhe sobre a sua cabeça em um belo dia
encerrendo-lhe o pouco resto de vida que tinha
e aliviando esse tosco autor
do resto de imaginação que lhe sobrava.


- raspas e restos me desinteressam.

sábado, 18 de setembro de 2010

.partir.

.de repente...
partiu
partiu-se em várias direções
todas ao mesmo tempo
partiu de uma vez só
para duer tudo de uma só vez

partiu pois não aguentava mais estar
não aguentava mais estar ali daquele jeito
não sabia mais dizer certamente onde,
ou mesmo como, estava

tinha a esperança que, após se partir,
haveriam muitos lugares possíveis para se ser
e muitos jeitos possíveis para se estar em

tudo numa velocidade gigantescamente metamórfica
que só o partir incerto, repentino e seguro pode oferecer
muita velocidade em todas as partes

partira-se e não sentia-se mais corpo nenhum
apesar de ser o corpo o que mais sentia naquele momento
como que pela primeira vez em um longo tempo de amarras
ou talas que envolviam àquele corpo e o impediam de sentir

estava sempre aqui, ali, acolá
sempre partida

estava em várias partes
estando no mesmo lugar
e sabia que, se partir,
era pra sempre
não tem como voltar

partiu-se
partiu sem aviso prévio
partiu sem precisar
pra onde.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

.da ecologia psíquica.

.preserve-se de você mesmo.
.evite o mesmo em você.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

.shhhh³.

.shhhhhhhh
calma.
respira.
não esquece de respirar,
é fundamental.
calma.
para de pensar.
para de tentar sentir.
shhhh.
calma.
sem pensar,
nem sentir.
deixa vir.
deixa.
se esforça pra se entregar.
respira fundo.
esse ar em teus pulmões
sabe muito mais do que qualquer um dos seus pensamentos
ou mesmo que qualquer uma das sensações que você tente nomear.
deixa o ar entrar.
deixa o ar sair.
deixa que ele vai.
respira.
deixa o ar te dizer a direção.
deixa o teu corpo leve pro ar levá-lo.

então, em silêncio,
me diz o que você quer
agora.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

.satisfação.

.já não tenho muita por conta dessa vida.

.o pouco que eu tenho você ainda quer de mim?.

.não vou te dar.






.poetado por/pela/para minha anima sem foco, thalita covre.

sábado, 17 de julho de 2010

.da leveza e do peso.

.não pediram mais nada
o silêncio, levemente,
pedia tudo o que era necessário
pr'aquele momento

os corpos, repletos de desejos densos,
encontravam-se como quem sabe
onde, como e porquê,
sem nem querer saber de quando

era uma intimidade tão leve,
tão natural e pura, como se ela já existisse
antes mesmo daqueles corpos existirem,
que não deu tempo pra pensar, sequer,
em uma forma de temer aquele momento,
nem seus motivos passados,
muito menos suas conseqüências futuras

não deu tempo pra pensar em ter medo
não deu tempo pra pensar em ter regra
não deu tempo pra pensar em palavrear o tempo
não deu tempo de, sequer, pensar em passados

.o agora era tão fugaz, necessário e aproveitável,
que não esburrava tempo pra se perder.

era uma intimidade tão leve, quase ingênua,
que só conseguiram mesmo pesar
em memória de bem querer de agora
e em folha de papel rabiscado depois.