segunda-feira, 12 de outubro de 2009

.a compra, a venda, a troca e a brincadeira.

.não deixe ninguém comprar sua folga
nem comprar sua vontade de não fazer nada
não permita que ninguém compre o tempo de teus devaneios
nem que compre a tua confiança na vida

não se permita vender tua certeza de que a vida é maravilhosa
de que você produzirá mesmo fora de um trabalho
não venda essa certeza!

não venda a tua vontade do novo nunca
muito menos em suaves e densas prestações de rotina amarga

não venda a tua rota
não venda o teu destino
não venda o teu gosto
não venda o teu corpo

brinque com o dinheiro
brinque com a situação

não se vende por dinheiro
nem pela situação.

invente novos caminhos pros mesmos lugares
sem esquecer de deixar os mesmos lugares diferentes

faça da venda, troca e compra, uma outra relação
produza em cima da dor e da alegria
produza sobre a oportunidade constante
brinque.

venda a brincadeira!
venda somente a brincadeira.!

.a ladeira e a bicicleta.

.acho graça do quanto aprendo com a bicicleta

ontem a noite, fiz questãod e descer uma ladeira íngrime com a bicicleta
como quem confia
como quem é seguro do certo e do errado
como quem confia numa escolha que não é tão sua, mas em parte sua

foi uma das primeiras vezes na minha vida
que eu me deixei ir
do alto ao baixo
usando e desusando os freios

sentindo
sentindo-me forte

e foi bom
diferente
imprevisível, porém certeiro

a queda, se necessário, faria parte
mas não fez

o vento no meu rosto lembrou-me da infância
lembrou-me do medo
lembrou-me do crescer.

.coisas pra trás.

.deixei certas coisas pra trás
tento não pensar nelas
não consigo evitar
tenho pena das coisas inanimadas que eu não uso
tenho pena das boas idéias que eu não exerço
tenho pena das atividades que deixo de fazer
queria ser tudo aos montes.

.acho que tudo isso
idéias, coisas e atividades, de certa forma, se sentem tristes por serem esquecidas, ou evitadas.

.eu sei, isso é só narcisismo.

.mas dá pena.

.dos livros no lixo.

.sai do trabalho de bicicleta, da mesma forma que cheguei
com aproximadamente 30 segundos de pedalada, na mesma rua do restaurante
eu vejo um homem com uma carruagem de papelão
apilhando livros que se encontravam ao redor e dentro de uma grande lixeira
daquelas fundas, específicas para lixo seco
dentro de sua enrome carruagem

dizendo por alto, eu diria que vi mais de 200 livros naquela cena bizarra

aos que brincam com a vida, não falta encontro com o surpreendente

perguntei ao catador de papel se podia olhar nos livros que ele estava catando
achei livros toscos e antigos, livros velhos e alguns quase recentes
livros sobre teologia, militaraismo brasileiro, história do brasil e filosofia

inusitado

catei alguns
enquanto catava, imaginava como os levaria para casa de bicicleta
quando vi, ao meu redor tinham mais de 10 livros de capa dura e pesados que me interessavam

enfim, vou resumir a história
estou num misto de vontade de detalher esse momento pra reler e rir depois com muitos detalhes
e vontade de escrever uma reflexão sobre isso
dá preguiça de escrever detalhes
apesar de gostar muito de, tempos depois, reler detalhes

enfim
achei graça do lixo
achei continuidade do lixo
depois não era mais o catador quem metia a mão na lixeira
mas eu
a lixeira era enorme e escura, a cada mãozada saiam mais livros, os quais eu morria de curiosidade para ler os títulos

confesso que a maioria me desagradava em gosto
mas me deixava facinado como registro histórico
pensei como os livros são história
a história de com a história se formou
nenhum livro é ruim
nenhum livro é inútil
os livros são uma das expressões de um continuidade!

antes dos livros, tinha vidro e sacos na lixeira
mão com cortes e livros

um bergson e um sorriso
um nietzche e uma garagalhada
aldous huxley!
autores que eu só ouvi de nome, ams reconheci
e outros muito undergrounds

surreal...surreal...

livros em lixeiras

deus sabe o quanto eu acho graça nos livros
eu não os resisto
quero comprar todos
nem é questão de lê-los
querendo ou não, não é esse o ponto fundamental
mas eu acho que o ponto, pelo menos um dos bacanas
é o acesso
é a cobrança
ter um livro é como uma idéia que cobra ser pensada!

me sentia bem mechendo no lixo
apesar dos cortes

o senhor que jogou os livros fora me viu mechendo na lixeira
oscar
disse-me que os livros eram de seu falecido sogro
e que por dias tentou doa-los a qualquer um
num desespero por ocupação de espaço caseiro
jogou parte fora


no desenrolar da história, oscar me chamou pra ir até a sua casa
falei também com sua esposa
disse-me que a maior parte da biblioteca abandonada ainda estava em casa
e precisava ser desfeita
mas que estava quase encomendada

acho que por desespero
e por dó de jogar tantos livros fora
oscar pegou meu telefone e disse que se der qualquer coisa errada
eu posso pegar os livros
dentro da casa de oscar, vi mais de mil livros encaixotados
me deu vontade de sentar e ver todos os livros que estavam dentro das caixas

um dia eu talvez entenda essa minha paixão visual por livros

por respeito, ou sei lá pelo que
perguntei o nome do falecido proprietário da biblioteca

- iacy - respondeu-me oscar.

disse tratar-se de um teólogo mineiro e não lembro mais o que

pensei tantas coisas sobre iacy que me dá preguiça de escrever

mas acho que pensei em iacy como um homem que eu gostaria de conhecer
me conectei com iacy sem nunca conhecê-lo
movimento cósmico

a mentira do conhecimento, como todas as outras mentiras, pode agradar
me agrada
gosto de pessoas que apreciam
o conhecimento
gosto de iacy.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

.narrativa central.

.gripe
o elemento fundamental dessa narrativa espacial
uma narrativa que intente situar o leitor em um determinado espaço
tem como elemento fundamental
a gripe
a porra da gripe
daquelas que teu nariz não pára de escorrer por um segundo
de tanto limpá-lo com lenços, suas extremidades sangram

gripe tão forte
que não há apetite
nem vontade
levanta-se cama por fim de atestado
levanta-se da cama sem indentificar vontade alguma
e sabe-se que será o dia inteiro assim
um corpo, ou objeto, sem vontade alguma
um objeto

gripe da pior condição
gripe em dia insuportavelmente quente

meio dia
gripe
corpo mole, febril, passos frágeis e calçada desnivelada
sobrem pedregulhos e buracos na calçada
falta espaço
por um instante curto se distrai
esquece do nariz e da garganta arranhada e pensa
“não há bengalas ou cães suficientes para essas calçadas.”
a corisa desce até o lábio superior
se confunde com o suor da pele
é mal aderida pelo lenço de papel já completamente úmido

falta espaço na calçada
o calor é insuportável
as roupas grudam nas costas
a virilha parece estar fervendo aos poucos
e, a todo momento
pessoas não param de esbarrar
e pior
empurrar-lhe panfletos
foge
disfarça
pega um folheto de dentista e outro de mãe de santo
juntos
joga os dois no bueiro
juntos
com a intenção de afogar a cidade inteira quando a porra da chuva cair no momento errado do dia errado por não ser hoje

do lado direito
anunciantes gritam em microfones e caixas de som rachadas
as roupas mais coloridas e bregas que você já viu na vida
imagina como há a possibilidade de qualquer filosofia pensar na existência de uma escolha
tendo esse maldito anunciante como exemplo
ele é um destino
um destino fudido
um deles lhe chama
faz uma graça
finge-se um sorriso
apressa – se o passo pra onde não tens a menor vontade de chegar
os gritos fazem a dor de cabeça aumentar
seu corpo anda por si
rasteja de pé
passo curtos
incertos
e moles

pensa na cama
nos lençóis nem tão limpos
mas sobre a cama

do lado esquerdo
gás carbônico
um fluxo infinito de carros
velhos e novos
enfumaçados
expelindo gases que você tem certeza
te fazem sentir mais calor

o nariz entupido não permite sentir o cheiro da fumaça
sente-se somente o gosto
asfixiante
como se não fosse o bastante
sobram buracos
anunciantes
pedregulhos soltos
alguns pedintes sujos
e falta ar

você reconhece então a sua primeira vontade do dia
a vontade de não existir.

.tinha vontade.

.tinha vontade de escrever sobre alguma coisa
tinha vontade de ter narrativas publicadas
poesias discutidas
sensações descritas e compartilhadas
não via razão nem sentido na escrita
mas gostava
não via porque se importar com o que os outros vão pensar
ou melhor
se os outros vão pensar sobre seus pedaços e fragmentos expostos em papel
ou em tela de computador

não era um apreciador de si para admirar a própria escrita
escrevia e escorria de uma vez
sem distinção
e depois nem lia de novo
confiava no fim da vontade

pouco tempo depois voltou a ler o que havia escrito
fazia tão pouco tempo
e, por incrível que pareça, as frases certeiras e auto impactantes
não eram mais as mesmas
não faziam mais suar
não se faziam necessárias, ou mesmo pareciam próprias
eram pouco afeto
eram passados
afinal, o que mais poderiam as palavras ser?
passados registrados
e se possível
esquecidos

achava que a palavra poderia ser tanto a memória que a gente quer guardar
quanto à memória que a gente quer esquecer
quanto à memória que a gente quer descobrir

mas é sempre passado
ações passadas em ações presentes
ações nunca passadas em ações sempre presentes
ações sempre passadas em ações nunca presentes

tinha vontade de agir sobre o presente e o futuro
só usando o passado
se perdendo em palavras
e perdendo as palavras
aos montes
com o sagrado e maligno
o tempo

tinha vontade de escrever
tinha vontade de alívio
tinha vontade de publicar um livro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

.sobre meu peito.

.agora eu falo dele
ele não em dá o mínimo sossego ultimamente
literalmente!
tem um buraco enorme nele
é literal porque eu vejo a cada dia crescer
é literal porque se não fosse literal
eu não sofreria tanto
é literal pelo fato d'eu saber que o é
há um buraco no meu peito
que grita necessidade de tudo
e tira a finalidade de tudo
me impedindo de tudo
me restando o relento ao nada
me convencendo da inutilidade da vida
me lembrando, só lembrando, como a vida foi idiota
sempre disfarçada de interessante, é claro.

meu peito e seu buraco
brincam de intercalar angústia e ansiedade
angústia como admiração do vazio
ansiedade como a espera de que no futuro o vazio cessará
o coração acelera dentro do buraco e a brincadeira fica séria

eu sinto e pressinto uma explosão cósmica
ninguém mais vê
ninguém mais sente
só eu e meu buraco no meio do peito.

depois a chuva vem
alivia
o acontecimento alivia
saber que as coisas mudam, que a chuva vem quando menos se espera
saber, ver e sentir que há beleza sem planejamento e sem a necessidade de ansiedade parece aliviar a dor e o vazio

ai só sobra registro
essa palavra
essa aqui
vai perder o sentido daqui a pouco

só ganha de novo na próxima crise de ansiedade.